Espaço do coletivo a palavra e o gesto para debates e reflexoes sobre os rumos da educação .

11.4.10

Opressão com Gorgonzola


Durante 3 anos fui professora do ensino regular, eu que só havia trabalhado em escola como educadora cultural em projetos 'vindos de fora'. Me deparei com situações que eu já previa: o famoso engessamento a que é submetido o processo ensino-aprendizagem por mais contemporâneas que possam ser as diretrizes pedagógicas propagadas e exigidas.Aí é que está o paradoxo: como se pode exigir autonomia e nova práxis educativa - de uma hora para outra - num universo tão burocratizado e medieval como o sistema escolar? As intenções, eu aplaudo. Mas há que se tomar cuidado para não trocar uma cartilha por outra. Transformar um ato de liberdade e respeito em um procedimento mecanizado e vigiado. Nesse tempo, e diante das incoerências e esquizofrenias da situação, meu 'escape' foi o processo criativo no planejamento das aulas. Ah...que delícia! Tudo o que eu via e ouvia era inspiração para uma pesquisa de texto, de 'bolação' de atividade, de recurso didático, de uma nova possibilidade de interagir pedagogicamente com determinado aluno - e era assim que me fortalecia e criava resistência a um ambiente que me era opressor. Fico aqui preocupada em dizer que a escola é um ambiente opressor - principalmente quando uma de suas funções seria a de alargar horizontes e almas. Deixo claro que esse foi um sentimento pessoal considerando meu histórico de vida - no mundo anárquico do teatro - e as condições do contexto em que estava. Sei de professores e escolas que não se enquadram nesses parâmetros...
Mas quero retomar a minhas descobertas do intenso processo criativo que vivi nesses 3anos. Matemática! Cruz credo o que fazer? - eu que tive uma educação matemática obtusa e me deparo com dificuldades primárias, até hoje, com o raciocínio lógico. Nas buscas encontrei um livro: "Os problemas da Família Gorgonzola", de Eva Furnari. São várias situações de uma família engraçadíssima, onde se apresenta a cada capítulo, um desafio matemático. Trabalhei com esse livro de várias formas e com crianças dos diferentes anos (2º, 3º e 4º), acompanhando a sequência da autora, inventando novos desafios,pedindo para os alunos criarem outros desafios com os Gorgonzolas. Quando percebia uma dificuldade da classe com algum conteúdo, lançava mão desse livro da Eva Furnari - que aliás é uma autora que não pode faltar no dia a dia do professor, de qualquer ano, para qualquer matéria, nas leituras individuais ou compartilhadas.
Depois descobri, pela revista Nova Escola, que uma professora desenvolveu um projeto com esse livro - vencedor do Prêmio Victor Civita. Fiquei feliz em saber que compartilhava a mesma intuição pedagógica com outra educadora, em relação às diversas formas de se trabalhar com a literatura, a matemática - enfim, o vínculo necessário entre educação e cultura. Essa perspectiva me acalentou e me alimentou na jornada - e trouxe às aulas e aos alunos a alegria,imprescindível, do conhecimento.

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